“Minha filha adolescente está com a insulina alta. Ela tem resistência à insulina?”
Essa é uma dúvida cada vez mais frequente no consultório.
Muitas vezes, a dosagem de insulina é solicitada durante uma avaliação de rotina. O resultado aparece acima do valor de referência do laboratório e, a partir daí, podem surgir preocupação, restrições alimentares e até o início de medicamentos.
Mas interpretar a insulina na adolescência exige cuidado.
Um valor elevado, isoladamente, não é suficiente para diagnosticar resistência à insulina — e existe uma característica da própria puberdade que não pode ser esquecida.
Na puberdade, a sensibilidade à insulina muda
Durante a puberdade ocorre, fisiologicamente, uma redução temporária da sensibilidade à insulina.
Isso significa que, nessa fase, os tecidos podem responder menos à ação da insulina. Como compensação, o organismo pode produzir uma quantidade maior desse hormônio para conseguir manter a glicose controlada.
Essa mudança faz parte das adaptações metabólicas que acompanham a puberdade e tende a se modificar com o avanço do desenvolvimento puberal.
Portanto, encontrar uma insulina mais elevada em um adolescente não significa automaticamente que estamos diante de uma alteração metabólica permanente ou de uma doença que precise ser tratada.
“Mas a insulina dela deu 30. Não é muito alta?”
É natural que um resultado assim chame atenção, especialmente quando aparece destacado no laudo como acima do intervalo de referência.
Mas o valor de referência apresentado pelo laboratório não deve ser confundido com um ponto de corte capaz de diagnosticar resistência à insulina.
Não existe um único valor de insulina de jejum que, isoladamente, permita dizer: “a partir daqui este adolescente tem resistência à insulina”.
A interpretação depende do contexto.
Precisamos considerar, entre outros aspectos, a fase do desenvolvimento puberal, a história clínica, o exame físico, a presença de fatores de risco e outras alterações metabólicas.
Por isso, tratar simplesmente o número da insulina pode levar a conclusões equivocadas.
E o HOMA-IR em adolescentes?
O HOMA-IR é um índice calculado a partir da glicose e da insulina em jejum e é utilizado para estimar resistência à insulina.
Assim como ocorre nos adultos, entretanto, ele não deve ser transformado em um diagnóstico a partir de um único número.
Na população pediátrica, essa interpretação é ainda mais delicada porque idade, sexo, estágio puberal, características da população estudada e outros fatores podem influenciar os valores encontrados nos estudos.
Portanto, também não existe um ponto de corte universal de HOMA-IR que possa ser aplicado indiscriminadamente a todos os adolescentes.
Então, como investigar alterações metabólicas na adolescência?
Nem todo adolescente precisa da mesma investigação.
Quando existem fatores de risco que justificam o rastreamento de pré-diabetes ou diabetes tipo 2, a avaliação pode incluir exames como:
- glicemia de jejum;
- hemoglobina glicada;
- teste oral de tolerância à glicose, quando indicado.
A escolha depende da história clínica e dos fatores de risco de cada adolescente.
Insulina e HOMA-IR podem eventualmente fazer parte de uma avaliação em situações específicas, mas não devem substituir a análise clínica nem ser utilizados isoladamente para estabelecer um diagnóstico.
O problema de transformar um resultado em um rótulo
Existe outra razão para termos especial cuidado nessa faixa etária.
Um resultado laboratorial pode rapidamente mudar a forma como uma família enxerga a alimentação daquele adolescente.
Começam orientações como:
- “Não pode mais comer carboidrato.”
- “Isso aumenta sua insulina.”
- “Você precisa emagrecer.”
- “Não pode comer isso.”
O objetivo pode ser proteger a saúde, mas a maneira como essa mensagem é transmitida importa muito.
A adolescência é uma fase de crescimento e desenvolvimento e também um período em que a relação com o corpo, a alimentação e a própria imagem ainda está sendo construída.
Muitos transtornos alimentares têm início justamente nessa fase da vida.
Por isso, quando mudanças alimentares são necessárias, elas devem ser orientadas de maneira individualizada, evitando restrições excessivas, culpa, medo dos alimentos e proibições indiscriminadas.
Cuidar da saúde metabólica não pode significar criar uma relação doente com a comida.
E a metformina?
Outro cenário relativamente frequente é o adolescente que chega ao consultório já utilizando metformina porque apresentou insulina ou HOMA-IR elevados.
A metformina é um medicamento importante e pode ter indicações específicas na adolescência.
Ela pode ser utilizada, por exemplo, no tratamento do diabetes tipo 2 e considerada em determinadas situações clínicas nas quais existe uma indicação definida.
Isso é diferente de prescrever metformina simplesmente com o objetivo de “baixar a insulina”.
Um resultado elevado de insulina, isoladamente, não deveria ser o único motivo para iniciar um medicamento.
Antes de prescrever, precisamos saber exatamente o que estamos tratando e qual é o objetivo daquele tratamento.
Resistência à insulina na adolescência precisa ser avaliada dentro do contexto
Resistência à insulina existe e pode estar associada a alterações metabólicas importantes.
A mensagem não é ignorá-la.
A mensagem é não transformar um resultado laboratorial isolado em diagnóstico.
Na adolescência, isso é especialmente importante porque a própria puberdade modifica temporariamente a sensibilidade à insulina e porque as consequências de um diagnóstico ou de uma orientação inadequada podem ultrapassar os limites do metabolismo.
Um adolescente não pode ser rotulado por um número no exame.
Precisamos avaliar história clínica, exame físico, fatores de risco e os exames realmente necessários para aquela situação.
E cuidar da saúde também significa preservar uma relação saudável com a alimentação e com o próprio corpo.
Precisamos dosar insulina em todos os adolescentes?
Depois de entender todas essas limitações, surge uma pergunta importante:
se a insulina isoladamente não diagnostica resistência à insulina e sua interpretação na puberdade é complexa, devemos solicitar esse exame indiscriminadamente?
Esse será o tema do próximo artigo.