Precisamos dosar insulina em todos os adolescentes?
A dosagem de insulina tem aparecido com frequência entre os exames solicitados para adolescentes, muitas vezes como parte de um check-up ou na investigação de excesso de peso.
Quando o resultado vem acima do valor de referência do laboratório, é comum surgir a preocupação:
“Meu filho tem resistência à insulina?”
Mas existe uma pergunta que deveria vir antes:
Precisamos realmente dosar insulina para saber quais adolescentes apresentam maior risco metabólico?
A resposta não é tão simples quanto parece.
Antes de pedir um exame, precisamos saber o que faremos com o resultado
Um exame não se torna útil para rastreamento apenas porque conseguimos medi-lo no sangue.
Para que um teste ajude a identificar determinada condição, precisamos saber como interpretar seu resultado, quais valores realmente representam maior risco e, principalmente, se essa informação é capaz de orientar uma conduta.
Esse é justamente um dos problemas da dosagem de insulina na adolescência.
Não existem pontos de corte universalmente aceitos e validados para a dosagem de insulina que permitam diagnosticar resistência à insulina em adolescentes a partir de um valor isolado.
Os resultados podem variar de acordo com o método utilizado pelo laboratório, com as características da população avaliada e com a própria fase da puberdade.
Por isso, encontrar uma insulina acima do valor de referência do laboratório não significa, por si só, estabelecer o diagnóstico de resistência à insulina.
A puberdade torna essa interpretação ainda mais complexa
Durante a puberdade ocorre naturalmente uma redução transitória da sensibilidade à insulina. Como resposta, o organismo pode produzir mais insulina para manter a glicose em níveis adequados.
Isso faz parte das mudanças fisiológicas dessa fase da vida.
No artigo anterior, “Resistência à insulina na adolescência: o que significa uma insulina alta?”, expliquei com mais detalhes por que a insulina pode aumentar durante a puberdade e por que um resultado isolado deve ser interpretado com cautela.
Por isso, não precisamos repetir toda essa discussão aqui.
A pergunta agora é outra:
Se a insulina isoladamente não diagnostica resistência à insulina e sua interpretação durante a puberdade é complexa, devemos solicitar esse exame indiscriminadamente?
Então adolescentes com risco metabólico não precisam ser investigados?
Precisam, sem dúvida.
O ponto não é deixar de investigar. É investigar corretamente.
A avaliação começa pela história clínica, pelo exame físico e pela identificação de fatores que possam aumentar o risco de alterações metabólicas.
Excesso de peso ou obesidade, história familiar de diabetes tipo 2 e outros fatores e sinais clínicos ajudam a identificar quais adolescentes precisam de uma avaliação mais cuidadosa.
A partir daí, os exames devem ser escolhidos de acordo com aquilo que realmente queremos investigar.
O que devemos rastrear?
Quando existe indicação de rastreamento metabólico, uma das principais preocupações é identificar precocemente alterações da glicose, especialmente pré-diabetes e diabetes tipo 2.
Para isso, os exames utilizados incluem:
- glicemia de jejum;
- hemoglobina glicada (HbA1c);
- teste oral de tolerância à glicose (TOTG), quando indicado.
A escolha dos exames deve considerar o contexto clínico e os fatores de risco de cada adolescente.
Isso é diferente de solicitar insulina para todos e tentar definir resistência à insulina a partir de um número isolado.
Por que um valor de insulina não define resistência à insulina?
O problema não está simplesmente em encontrar um resultado acima do valor de referência do laboratório.
Na adolescência, não existem pontos de corte universalmente aceitos e validados para a dosagem de insulina que permitam diagnosticar resistência à insulina a partir de um valor isolado.
Além disso, os resultados podem variar de acordo com o método utilizado pelo laboratório, com as características da população avaliada e com a fase da puberdade.
Isso significa que um número não pode ser interpretado fora do contexto clínico.
Um valor isolado de insulina não deve ser transformado em diagnóstico de resistência à insulina em um adolescente.
E o HOMA-IR?
O HOMA-IR é calculado a partir da glicemia e da insulina de jejum e é bastante utilizado em estudos científicos para estimar resistência à insulina em determinadas populações.
Na adolescência, porém, não existe um ponto de corte universalmente validado que permita utilizar o HOMA-IR, isoladamente, para estabelecer esse diagnóstico na prática clínica.
Os valores encontrados nos estudos podem variar conforme a população avaliada, o estágio puberal e o método utilizado para medir a insulina.
Portanto, calcular o HOMA-IR não elimina as limitações da dosagem de insulina nem transforma esse resultado, isoladamente, em um diagnóstico.
Pedir mais exames não significa necessariamente cuidar melhor
Existe uma tendência compreensível de associar check-ups extensos a uma medicina mais preventiva.
Mas prevenção não significa solicitar o maior número possível de exames.
Um exame sem uma pergunta clínica clara pode gerar alterações de significado incerto, novas solicitações, ansiedade e até intervenções desnecessárias.
Na adolescência, existe ainda uma preocupação adicional.
Quando um resultado isolado se transforma em um rótulo de “resistência à insulina”, ele pode ser acompanhado de restrições alimentares desnecessárias, ansiedade e uma relação mais difícil com a comida e com o próprio corpo.
Na tentativa de cuidar da saúde metabólica, não podemos acabar comprometendo a saúde mental.
Isso não significa ignorar riscos metabólicos ou deixar de orientar alimentação, atividade física e outros hábitos importantes para a saúde.
Significa fazer essas orientações a partir de uma avaliação adequada, sem transformar um exame isolado em um diagnóstico que ele não é capaz de estabelecer.
Afinal, precisamos dosar insulina em todos os adolescentes?
Não.
Adolescentes que apresentam fatores de risco devem ser avaliados e, quando houver indicação, investigados para alterações metabólicas com os exames recomendados para esse objetivo.
A dosagem de insulina de jejum e o HOMA-IR não possuem pontos de corte universalmente validados que permitam, isoladamente, estabelecer o diagnóstico de resistência à insulina na adolescência.
Isso não significa investigar menos.
Significa saber quem investigar, o que procurar e quais exames realmente podem ajudar no cuidado daquele adolescente.
Rastrear corretamente não é solicitar todos os exames possíveis. É investigar aquilo que realmente pode mudar o cuidado.
E, principalmente:
Investigar corretamente é uma oportunidade de cuidar hoje e prevenir problemas no futuro.